Durante o mês de agosto o Núcleo Transversal e a Cia Artes Val Leine se
encontram no instagram em lives literárias e diálogos que
pretendem tematizar pesquisas e exercícios estéticos latentes durante a
pandemia. No evento virtual que batizamos de "Casa Aberta" serão
abordadas as obras de Clarice Lispector e Julio Cortázar a partir da
leitura dos contos "Mineirinho" e "Casa tomada". Também será proposto
diálogo sobre as pesquisas em andamento nos grupos focalizando o
trabalho do intérprete-criador: presença e corpo cênico.
sábado, 1 de agosto de 2020
domingo, 26 de julho de 2020
O ator como compositor: Chão, corpo-voz, presença e partitura
“Uma palavra de madeira cai no chão.
Caixão, dessa maneira”
Marisa Monte/Arnado Antunes/Arto Lindsay
No trabalho com o corpo, os pés (base do
corpo) são sempre o início. Já constatamos. Tenho falado sobre a potencialidade
expressiva do corpo a partir de alterações nesta base. Os pés podem ser,
também, o apontamento inicial para o trabalho vocal. O corpo “apoiado” propicia
a dilatação que influencia na potencia e na expressividade vocal. Em meu
percurso de formação como ator, já vivenciei pesquisas práticas que
relacionavam corpo e voz. A começar pela base, o apoio no calcanhar ou nos
dedos associado à possibilidades de emissão de sons agudos ou graves. Retomo
uma fala de Isabel Setti, diretora e professora de voz, sobre a experiência da
palavra que parece dialogar diretamente com nossas investigações sobre
presença:
Apoios, dilatação dos espaços internos,
tridimensionalidade. Fluxos de energia, direcionamento do sopro,
sonoridade das vogais, precisão das consoantes. A boca, seus espaços, sua mobilidade. Flexibilidade
e plasticidade da articulação. Apropriação da palavra e das ideias. Ressonância.
Assertividade. Presença: uma espacialidade dentro de outra
espacialidade; uma espacialidade gerando e conectando espacialidades. Identificação do sujeito que fala à
coisa dita.
Necessidade. Urgência. Escuta ativa: maturar a palavra no silêncio. Deixar-se
tocar por seu corpo vivo. Instinto. Relação do intérprete com as poéticas de seu mundo.
Testemunho. (SETTI,: 2007, 31).
Não podemos separar experiências
anteriores e atuais, teoria e prática etc. Do mesmo modo interessa relacionar trabalho
corporal e o trabalho vocal, na medida em que, sabemos, corpo e voz não se
dissociam. Assim, na prática corporal os sons são bem-vindos. Noto a armadilha
de emitirmos sons “artificiais”, que não são respostas orgânicas ao movimento
realizado, portanto, não nos colocam em estado de descoberta. Interesso-me e
busco manifestações sonoras que estão perfeitamente integradas ao movimento
realizado.
O chão é um grande
parceiro no trabalho de criação e exploração da partitura. Este é um trabalho
de pesquisa muito raro, muitas vezes em trabalhos de montagem de espetáculo ou
outros trabalhos de ator a etapa de investigação de partituras é reduzida ou
mesmo suprimida. O trabalho com partituras e o entendimento dos apoios e
direcionamentos ajudam a entender o trabalho do ator em contexto diferentes do
palco. Por exemplo, durante a gravação de conteúdos audiovisuais. A ação física
do ator pode ser entendida como partitura e o trabalho com o direcionamento do
peso auxilia na resistência e manutenção de horas de trabalho incessantes
repetindo takes iguais.
domingo, 12 de julho de 2020
Mimesis a partir de referenciais do corpo
“Me vejo no que vejo
como entrar por meus olhos
em um olho mais límpido
me olha o que eu olho
é minha criação
isto que vejo
perceber é conceber
águas de pensamento
sou criatura
do que vejo.”
Octavio Paz
como entrar por meus olhos
em um olho mais límpido
me olha o que eu olho
é minha criação
isto que vejo
perceber é conceber
águas de pensamento
sou criatura
do que vejo.”
Octavio Paz
O trabalho com a base do corpo (pés) já contém um primeiro apontamento
para criação de personagem. Isto em maior ou menor grau pode ser trabalho para
construção de personagem desde o naturalismo (alteração menor com apoio da
respiração) até outras estéticas inclusive corpos cômicos. Observa-se no corpo o
grande potencial cômico durante o simples trabalho de caminhar com borda
externa ou interna dos pés. Penso que isso é apenas a base e que outras partes
do corpo podem ser mobilizadas num trabalho de pequenas alterações de eixo e
peso que sejam capazes de orientar a criação de personagens e tipos (bêbado,
por exemplo). Mas a base é um ponto muito importante neste tipo de trabalho. Como
o corpo pode ir se alterando fisicamente e criando signos que podem dar conta de
uma caracterização física. A escuta sensível destas alterações corporais é
fundamental, pois pequenas alterações, podem dar conta de revelar de uma
postura corporal que indique arrogância, humildade, timidez etc. e é importante
que estas atitudes sejam conscientes.
Lembramos do referencial trabalho do LUME de campinas e seu trabalho de mimesis corpórea que dialoga com o trabalho de Decroux. A Técnica Klauss Vianna é um caminho para se trabalhar este trabalho imitativo do corpo. Este trabalho me prova que não tenho trabalhado algumas bases como braços, por exemplo, que estão muito fracos e penso que a participação deles é fundamental para a capacidade de realizar certos movimentos fora do cotidiano. Por exemplo, dançar ou sustentar o corpo em pausa em cena. A distribuição do peso é uma pesquisa importante.
Relembro que a muitas pessoas recorrem à musculação para atingir um melhor desempenho de força e muitas vezes já fui advertido que a musculação pode travar alguns músculos barrando o fluxo e reduzindo o repertório de movimentos. Nesta perspectiva começo a entender a importância e o valor que esta pesquisa com peso pode ter nas artes do corpo. No contexto de um espetáculo ou apresentação estar presente sem necessariamente estar falando por exemplo. O domínio de peso e partituras nos auxilia nisso.
Podemos pensar possibilidades de representação a partir da noção de percepção e estabeleço um diálogo direto com esta pesquisa prática com mimese corpórea. Alain Berthoz defende a incapacidade do corpo humano de repetir, problematizando a capacidade de representação. Neste sentido os estudos do corpo que temos feito provoca toda esta onda de discussões que invade o campo das artes no que diz respeito à representação, presentação e a emergência das artes chamadas “performativas”.
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