quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

EXPERIÊNCIA.HAMLET

Antes tarde que mais tarde... Acabo de viver a minha experiência pessoal com Hamlet, para alguns o maior clássico da dramaturgia ocidental. Aproveitei a volta do espetáculo Ensaio.Hamlet da Cia. dos Atores sob direção de Enrique Diaz para ler o texto na integra e, de quebra, acompanhar um workshop de quatro horas com o diretor.

Minha ansiedade e expectativa eram grandes, mas não maiores que as cobranças de amigos próximos, indignados com meu desconhecimento. Bem, na realidade em se tratando de clássicos, evidentemente eu já havia lido o Hamlet, pulverizado num trecho em inglês sobre a morte de Ofélia numa apostila de curso pré-vestibular; na recorrência intrigante do monólogo “Ser ou não ser...”; em milhares de produtos culturais televisivos e cinematográficos;  na impactante Hamletmachine de Heiner Muller; na velha imagem do ator abatido vestido de preto com uma caveira nas mãos etc.

A primeira surpresa de Ensaio.Hamlet foi motivada pela fala do diretor (Encontro.Hamlet - SESC) – Enrique nos diz ter lançado mão de workshops com os atores, composições e depoimentos pessoais para criar um espetáculo que não apresentaria uma leitura fechada de Hamlet. Curiosamente o Hamlet de Shakespeare está muito presente na montagem tanto na ordem cronológica da ação quanto na presença de trechos inteiros que dão conta da essência do livro. Assim, ao contrário do que eu poderia imaginar, não se trata de um espetáculo constituído por marcas de pessoalidade que se sobrepõe ao material dramatúrgico original.
Do ponto de vista historiográfico é fácil concordar que Ensaio.Hamlet é um divisor de águas no teatro brasileiro. A própria plateia do SESC Belenzinho tomada por grandes nomes da crítica e da produção cultural nacional entre estudantes e pesquisadores de teatro parece reforçar a relevância histórica da peça e certo “jogo de espelhos” ao qual o diretor se refere ao falar da estrutura de Hamlet.  

Em 2012, Ensaio.Hamlet ganha certo ar familiar, provavelmente pelo fato de que seus recursos de linguagem foram exaustivamente reproduzidos na última década. Há um “sotaque contemporâneo" no espetáculo cuja gênese deve remontar ao período de sua estreia, mas que a reprodução não colabora para garantir o frescor que mereceria ter. Há, no entanto, uma justeza de Hamlet ao formato escolhido por Diaz a qual, intuo, também haver em sua montagem de A Gaivota de Tchekhov. Ajuste o conteúdo à forma e ao seu tempo, diz noutras palavras o príncipe Hamlet aos atores e parece ser obedecido pelo mais contemporâneo dos encenadores brasileiros.
Em alguns pontos o espetáculo também se faz no terreno experimental. Estamos diante de tentativas mais ou menos eficientes de se comunicar por meio de objetos da nossa cultura, ações reais, gestos e efeitos. Bem, a reestreia do Ensaio.Hamlet em São Paulo produz uma estranha sensação de intimidade e reconhecimento tanto pelo material clássico abordado, quanto pela reprodução vertiginosa dos recursos empregados na peça. E se fechar um sentido não é preocupação do diretor, ele acaba acidentalmente fechando uma das mais contundentes proposições nacionais para a enunciação teatral contemporânea, pós dramática ou seja lá como for o nome dado para nosso já velho teatro do homem contemporâneo flasheado, internético, pessoal... O resto salvo raras exceções tem sido silêncio.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O FANTASMA DE CANTERVILLE

Grupo de teatro estreante aposta em terror cômico para crianças

O Fantasma de Canterville estreia dia 03 de março no Teatro Coletivo em São Paulo. Livremente inspirado no livro de Oscar Wilde o espetáculo é o  primeiro trabalho do Grupo OPS de Teatro. Criado por atores recém-formados pela primeira turma da SP Escola de Teatro, o grupo nasceu da vontade de constituírem um núcleo pulsante de pesquisa e prática teatral. O norte criativo é a relação com a cidade e seus indivíduos e as rápidas mudanças sofridas no comportamento de ambos.

O Fantasma de Canterville conta a história de um diplomata que chega com sua família à Inglaterra e decide comprar o Castelo de Canterville. É advertido pelo próprio Lorde Canterville, o honesto proprietário do castelo, de que está cometendo uma loucura, uma vez que ali fora visto almas do outro mundo: “É difícil conciliar o sono à noite, por causa dos estranhos ruídos vindos do corredor e da biblioteca”. Porém, o diplomata não acredita em fantasmas e sua mulher acha que a situação garante uma originalidade aos jantares que organiza, os filhos gêmeos passam a se divertir em pregar peças no fantasma residente que deixa de assustar para ser o assustado. Só a filha adolescente compreende a sua imensa tristeza e resolve ajudá-lo a se desprender para a conquista da paz.
O grupo trabalha um terror cômico no universo infantil e aposta no resgate do conteúdo lúdico das histórias de terror, dos fantasmas que tem se perdido em meio a um mundo cada vez mais cético, científico e tecnológico.

Sinopse: A partir do texto O Fantasma de Canterville, de Oscar Wilde, Uma família se muda para uma localidade mais pacata e afastada da cidade. Nesta nova casa habita um fantasma que já expulsou várias pessoas que ali moraram, através de diversas artimanhas de susto e terror. Com a chegada dessa família a lógica é invertida, quem aterroriza agora são os novos habitantes que pregam peças e subestimam a figura do fantasma.


Autor: Oscar Wilde Adaptação: Jobson Gil Ricciardi Criação coletiva do Grupo OPS de Teatro Elenco: Daniela Oliveira, Lais Uesato, Marcia Gonzaga, Samara Chedid e Thiago Dias Sonoplastia: Theo Yepez Iluminação: Ivan Santos Assessoria de Imprensa: Tom Paranhos


O Fantasma de Canterville
Temporada: De 3 a 25 de Março de 2012
Teatro Coletivo Rua da Consolação, 1623 - São Paulo - (11) 3255 - 5922
Sábados e domingos, às 16 horas
Ingressos: R$ 30,00 (inteira), R$ 15,00 (meia)
Infantil; 50 minutos; Classificação Livre.
http://www.wix.com/grupoopsdeteatro/ops


segunda-feira, 14 de novembro de 2011

KOTEBA - UMA VIAGEM INVENTADA NO FELIZ

No próximo dia 23 o projeto TER UMA BRINCADEIRA É TER UMA ALEGRIA NA VIDA realizará abertura deste processo de pesquisa e experimentação teatral a partir do tema da infância. O experimento cênico KOTEBA produzido na SP ESCOLA DE TEATRO - Centro de Formação das Artes do Palco, inicia o primeiro ciclo do projeto com a transposição de seis contos para a cena, bem como a investigação da palavra, do ator-narrador, brincadeiras e jogos em cena.
Uma roda de contação de histórias, brincadeiras, jogos e canções, convida o público a embarcar no "País do Bem" numa tentativa de resgate do espírito lúdico da infância. Narrativas sobre alegria, melancolia, transformação, vida e morte se entrecruzam a partir de contos de Clarice Lispector, Guimarães Rosa e Marcelino Freire.


Direção: Naloana Lima Atuação: Fernanda Lopes, Samara Chedid e Tom Paranhos Dramaturgia: Paula Cicolin Sonoplastia: Danuza Novaes Cenografia e Figurino: Mariane Bonarde Iluminação: Luana Belem Técnicos de Palco: Alício Silva, Luis Machado Garcia e Sionara Reis Assistente de Direção: Renato Teixeira Artista Orientador Convidado: Cris Lozano Artista Formador Responsável: Viviane Ramos

Serviço:
Teatro Plínio Marcos
Shopping Pompéia Nobre, Piso Superior
Rua Clélia, 33 Barra Funda (Ao lado do SESC Pompéia)
Quarta – 23/11 10hs; 12hs e 20hs
80 Lugares; Classificação 14 anos
Duração: 50 min
Entrada Franca - Retirar ingressos uma hora antes
http://terumabrincadeira.blogspot.com/

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

CABARET STRAVAGANZA

Baseado na ideia de humanidade expandida, em que corpos e tecnologia são uma extensão, o espetáculo do grupo Os Satyros discute a relação do homem com a revolução tecnológica e suas implicações sobre a vida contemporânea. No palco, a peça utiliza recursos multimídia, internet e telefonia, numa sequência de cenas e intervenções performativas.

O diálogo do grupo com a linguagem da performance iniciado em "Hipóteses para o amor e a verdade" é agora verticalizado. "O que é corpo?" Parece ser a questão desdobrada em todas as cenas do espetáculo. O flerte do teatro com a performance parece ser muito feliz e pertinente à pesquisa de linguagem e histórico do grupo que há anos preconiza uma idéia de corpo não neutro para a cena, um corpo que carrega e revela sua história. Cabaret Stravaganza parece querer discutir a noção de beleza que escraviza e as possibilidades de autonomia dos individuos sobre o próprio corpo. A peça enuncia uma ruptura com estereótipos de normalidade e beleza que talvez os próprios espectadores possam carregar e/ou projetar.


Direção: Rodolfo Garcia Vazquez
Espaço dos Satyros Um
Até 17 de dezembro de 2011.
Quintas, sextas e sábados, 21h; R$ 20.

domingo, 23 de outubro de 2011

THÉÂTRE DU SOLEIL NO BRASIL

A presença do grupo Théâtre Du Soleil no Brasil é sempre um evento curioso que dá pistas sobre o que tem sido valorizado e desvalorizado no teatro, coloca em cheque algumas convicções, para alguns reforça certo ideal de prática artística, para outros abre uma gama enorme de novos questionamentos. Tudo chama atenção não só no grupo, mas na recepção: A mobilização da classe artística, a dificuldade na obtenção de um ingresso, a duração dos espetáculos, os meios e modos de produção do grupo etc.

A expectativa começa semanas antes do inicio da venda dos ingressos que esgotam em menos de duas horas. Este não é um fato isolado, outras companhias de peso internacional e mesmo nacional também tem ingressos esgotados muito rapidamente, o que nos faz refletir sobre a idéia de “crise do teatro”. Se fazer espetáculos para a classe artística incomoda a muitos grupos, é importante considerar que a chamada “classe artística” vem aumentado muito, ao ponto de lotar uma tenda de mais de cem lugares dezenas de vezes. A crise parece apontar então para uma transformação do público que deixa de ter interesse em ser apenas espectador, é iniciado na prática teatral. Não há carência de público, portanto, há uma mudança de características do mesmo.

A noticia de que tal companhia é composta por artistas de todas as partes do mundo que ensaiam um mesmo espetáculo ao longo de cinco a dez meses, cinco vezes por semana, dez horas por dia também desperta grande comoção. O “público” brasileiro dá indícios de estar especialmente interessado em investigar o modelo bem sucedido em todos os seus aspectos e esferas de realização. Há uma impressão geral de se estar diante das condições ideais de se produzir espetáculos e praticar teatro, muitas vezes sonhado e inatingível para os padrões brasileiros. Afinal quais são os grupos em nosso pais que podem garantir a previdência de seus atores, salários, repouso remunerado, sede própria, alimentação no local etc.? Pensando sob esta perspectiva, é possível até aumentarmos nosso grau de exigência e expectativa diante de um espetáculo teatral feitos sob tais condições. O centro de pesquisa e residência artística liderado por Mnouchquine assume-se declaradamente como um projeto de caráter social e político pra o desenvolvimento das artes cênicas que extrapola questões estéticas.

O que Ariane Mnouchquine nos oferece, enfim, é um espetáculo de quatro horas de duração – que para muitos espectadores "treinados" torna-se bem cansativo. “Les naufragés du Fol Espoir (Aurores)” é Inspirada pelo romance póstumo “Os náufragos do Jonathan”, de Julio Verne, a dramaturgia é assinada por Hélène Cixous e a trilha sonora original é executada ao vivo pelo músico e compositor Jean-Jacques Lemêtre. O espetáculo é ambientado em 1914, às vésperas da Primeira Guerra Mundial. Em cena, uma trupe fascinada pelo advento do cinematógrafo se aperta no sótão de um cabaré para rodar um filme. O filme dentro da peça que remete a um procedimento bastante reproduzido em centenas de espetáculos contemporâneos, retrata a história de emigrantes que, no final do século XIX, deixam o País de Gales rumo à Austrália, mas encalham na Terra do Fogo, onde tentam forjar uma comunidade socialista. O enredo aponta claramente, portanto, ao projeto artístico do grupo que se não surpreende no conteúdo, hipnotiza na forma, na orquestração das cenas no palco, no engajamento de todos os interpretes na composição de uma cena que dialoga com praticamente tudo o que se discute atualmente no teatro.

As produções do Téâtre Du Soleil são o resultado de uma combinação atípica, quase paradoxal, dos modelos de processo criativo tão discutidos atualmente. Por um lado a premissa do envolvimento de todos os integrantes da companhia em todas as etapas de criação. Assim, cada montagem é concebida por meio da contribuição de cada um dos artistas participantes, a partir de seus universos culturais específicos. Por outro a orquestração e a palavra final da diretora. Há uma mescla, portanto, de procedimentos identificados naquilo o que se cunha processo colaborativo e a direção autocrática.


Os Náufragos da Louca Esperança (Auroras) –
Théâtre du Soleil (França)
SESC Belenzinho - 05 a 23 de outubro – Quarta a domingo 19hs
Classificação 12 anos
www.sescsp.org.br/osnaufragosdaloucaesperanca